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ASSIM ERA O INTERIOR

Quinta, 07 de maio de 2020

 

                                                                             

“Só deixo meu Cariri no último pau- de- arara.” LUIZ GONZAGA

 

                                                                              JUAREZ ALVARENGA

 

                                   O sino solitário da matriz anuncia que a cidade não está deserta. Seus homens caçadores da rotina saem das cavernas onde os cascavéis manifestam o seu poderio.

                                   Os jovens desocupados ocupam os corações das adolescentes. Como garimpeiro em mar pródigo busca insaciavelmente os sonhos distantes.

                                   O filho do fazendeiro aquele que foi para capital e voltou, queria ser doutor, mas o destino foi traiçoeiro. Agora trabalha desesperadamente. Seus ideal os tratores enterraram. Na sua fazenda, sonha com cidade, com a menina de suas quimeras, com o baile no fim de semana no clube, com a boate. As luzes da noite desenham estrelas nas ruas desertas. Seus usuários, como guerreiro homérico, atiram nas ilusões da meia-noite. A vida não tem assombração. É uma delícia ver as adolescentes brincarem de Branca de Neve. Mesmo se o público é de anões.

                                   Agora são duas horas, hora fatal. e o filho do fazendeiro começa a pensar “o que será que minha namorada está fazendo?” Lendo a revista Capricho? Torcendo pelo meu trabalho ou ouvindo rádio? Se ela ama mentira eu amo a rotina. A vida se faz, não idealiza. A vida se consegue, não mistifica. Agora é tarde, o trabalho no espaço se perde. E lá vem todo vaidoso. Avista da igreja e as meninas da periferia toda sonhando com ele. Cheio de razão e portador de sonhos, chega na cidade. Que maravilha! As normalistas que passam para as escolas carregam nos seus cadernos o sonho de dia ser donas de quem é dono da cidade. A certeza de que a simplicidade é fonte inesgotável de felicidade. A pureza é sintoma evidente de que o céu é atingível.

                                   Os baianos da cidades roubam os corações como profissionais da arte seduzir. A vida se resume num artifício aconchegante em noite de lua cheia. A utopia mora com a felicidade. Ambas enfeitam com simplicidade as ruas dos cães poetas. A ciência, coitada passa como relâmpago em noite de tempestade. A razão só tem coexistência se a vida é a protagonista.

É um paraíso que passa pela janela. Os dias úteis parecem feriados constantes. A paisagem real faz inveja aos cientistas mais convictos. O cético acredita que a felicidade é uma eterna mentira. Neste universo fragmentado o todo só é atingível com plenitude consistente de ir além da felicidade.

        



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