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No Mundo da Lua - Sônia Pillon


Sônia Pillon nasceu em Porto Alegre e há duas décadas reside em Jaraguá do Sul. 

Formada em Jornalismo pela PUC-RS e pós-graduação em Produção de Texto pela Univille.

Atuou como repórter, editora, redatora e assessora de imprensa  no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. Por mais de 10 anos atuou no jornal A Notícia.  

Sempre se dedicou à literatura e às ações culturais. É autora de “Crônicas de Maria e outras tantas – Um olhar sobre Jaraguá do Sul” e “Encontro com a paz e outros contos budistas”, com participação em antologias de contos, crônicas e poesias.

Publica no Jornal Evolução, no blog soniapillon.blogspot.com e na fanpage "Sônia Pillon Escritora". 

É Presidente de Honra da Seccional Jaraguá do Sul da Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina (ALBSC). Integra o Grupo Gestor do Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) Mestre Manequinha e o Conselho Municipal dos Direitos do Idoso de Jaraguá do Sul.


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O homem da montanha

Sexta, 24 de janeiro de 2020

 

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 Sônia Pillon

A barba comprida e grisalha, as roupas surradas, a despreocupação com a higiene pessoal,
a aparência desleixada e a expressão carrancuda eram características que já denunciavam a
personalidade de João Bonamigo. Ironicamente, apesar do sobrenome, era um homem que
não cultivava amizades. Era por demais desconfiado e não confiava em ninguém. Por isso,
se mantinha sempre à espreita. Temia que ladrões quisessem invadir a propriedade,
herança de família, do tempo em que seus ancestrais chegaram para se estabelecer no
lugar, criar gado e plantar. Como era de se esperar, gostava mais de animais do que de
gente.
O velho homem da montanha beirava os 65 anos. Porém, por causa da notória falta de
vaidade e do modo de vida rústico, tinha sulcos profundos na face e aparentava bem mais.
Sim, tinha uma aparência assustadora!
João raramente descia para a “civilização”, a não ser para comercializar frutas, legumes e o
queijo que produzia. À sua chegada, causava estranheza nas pessoas, especialmente entre
as crianças, que arregalavam os olhos e se agarravam nas saias das mães. Ele sabia que
causava medo e parecia gostar disso.
Quando sentia a aproximação de desconhecidos, nos limites de suas terras, atirava para o
alto. Não por acaso, era chamado de “Jack Espingarda” pelos moradores da localidade.
Morava em um rancho de madeira, nos fundos da extensa propriedade, rodeado de cães
mal-encarados e raivosos. Lembrava um daqueles personagens lendários, com o
Abominável Homem das Neves.
Pouco se sabia sobre ele, a não ser que tinha mais quatro irmãos que moravam em outro
estado e nunca o visitavam. O pai havia morrido de enfarte quando tinha oito anos. “Jack
Espingarda” era o filho caçula, muito apegado à mãe, uma mulher devota de Nossa
Senhora Aparecida que mantinha uma capela nos fundos da casa. Quando a mãe dele
morreu de câncer, dizem que ele apareceu no enterro de óculos escuros e a partir daquela
data se refugiou ainda mais no isolamento. Muitos o achavam um ser bizarro, riam dele
pelas costas, enquanto outros se perguntavam se ele não sentia solidão.
Um homem certa vez confidenciou no Bar do Gregório que Jack Carabina era virgem e
que nunca havia se envolvido com nenhuma mulher. Disse que chegaram a levá-lo para
um cabaré bastante frequentado na região, mas ele fugiu assustado e nunca mais apareceu
por aquelas bandas.
_ Mas e então, o que aconteceu com esse homem? Ainda está vivo?, perguntou o jovem
Alexandre, sem esconder a curiosidade.

_ Não, meu filho, ele morreu há uns cinco anos, numa noite de forte tempestade... Na
manhã seguinte ao temporal, os sete cães da propriedade uivavam insistentemente,
chamando a atenção de um vizinho que passava próximo à cerca de Jack Espingarda. Os
uivos eram de arrepiar e o homem achou melhor avisar a Polícia para conferir o que havia
acontecido. Jack foi encontrado caído junto à mesa da cozinha. Os exames confirmaram
que tinha sido um enfarte fulminante. Morreu só, como sempre se manteve em vida.



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