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Michell Foitte

michell_foittehotmail.com

Psicólogo Clínico Gestalt-terapeuta

CRP 12/07911


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Aline

Quarta, 16 de março de 2016

Aline.

É preciso deixar minha gratidão nesta singela correspondência pelo final de semana que passamos, eu e você, em sua casa.

Adorei a sala assoalhada cor de mel que por ela debruçava aquele tapete macio que o visitamos tantas e tantas vezes com nossos corpos espelhando a claridade da lua que atravessava sua magnitude pela janela.

É verdade o que dizem: mulher e lua são seres que se atraem.

Adorei cada canto da casa. Adorei as dobras do seu pescoço por onde meus beijos molhavam sua carne. Os livros empilhados na cabeceira ainda por ler. Ah, molhei um pouco um deles, um de capa dura, com a água que escorria do copo com gelo que trouxe naquela madrugada. Você percebeu que o vermelho da capa desbotou para um tom mais rosado? Internamente, Aline, o livro está intacto. E aquela almofada terra-cota que estava sobre a poltrona, àquela mesma que você sabe muito bem o que aconteceu, a almofada estava desfiada antes mesmo de sentarmos sobre ela.

Sua casa tem o frescor do sol que entra pela manhã festejando e lambendo a mesa do nosso café que esfumaceia suas gotículas vaporizadas do mesmo sol que bate sobre suas coxas quando seu vestido se levanta ao cruzamento de suas pernas, deixando à mostra seus pelos dourados cor do mesmo mel que escorre da colher até o café.

Aline. Queria também dizer que você tem um incrível jeito de resistência. Aquela virilidade de mulher que as feministas não entendem. Sim Aline! Minha alma e meu corpo estavam confortáveis em seu lar de águas tranquilas. Posso sentir o tilintar das bolhas do sabonete que se formavam quando lavava seu corpo cheiroso e macio. Minha alma é o meu corpo quando em nós se consome a verdade.

Ficaria por mais tempo como você mesmo sabe. Não permaneci mais não fosse um detalhe que gostaria de lhe dizer agora através dessa correspondência.

Há alguns anos, quando ainda estudava no colégio de freiras, por volta dos meus sete anos, eu comecei a ter enjôos logo após uma das irmãs desse mesmo colégio ter nos obrigado a andar descalços em pisos frios em dia de geada, tudo para não sujarmos o chão recém encerado com nossos calçados. Lembro que ela, a irmã, falava asperamente com um português mesclado e carregado de um sotaque alemão.

Quando cheguei em casa não quis dizer nada para minha mãe, então, no final da tarde, passando ainda pelos enjôos, eu vomitei um sapo.

Sei que parece estranho, mas quando eu o cuspi no chão pude escutar seu coaxo. Depois o sapo desapareceu por debaixo das flores que tínhamos no quintal.

Dias depois escutei meus pais brigando e outro sapo saltara da minha boca. Gentilmente peguei o verdulengo em minhas mãos e o coloquei no jardim de casa.

Aline. Pesquisei sobre o fenômeno, mas nada igual parece ter acontecido na história da humanidade. Engraçado, pois, há tantas pessoas engolindo sapos e eu...

Lembro de uma vez que viajava de ônibus de férias visitando amigos pelo litoral quando novamente aconteceu, só que dessa vez eram gêmeos. Minha sorte que carregava uma mochila e lá os coloquei ate chegar à casa da minha mãe e poder soltá-los no gramado. Ainda é possível vê-los saltitando por aquelas gramíneas atrás dos insetos que lá se encontram.

Minha primeira vez com uma mulher foi a mesma coisa. Instantes depois do ato consumado lá estava eu vomitando um sapo. Parece ser um joguete da vida, eu louco para ter uma perereca — desculpe o trocadilho — e depois vomitando sapos.

Acontece às vezes quando vejo os políticos desviando dinheiro público. Quando há mortes no trânsito. Quando há assassinatos, nas violências em geral.

Era o que eu queria dizer para você Aline. Sei que vai parecer estranho, mas gostaria da sua descrição, já que você é a única pessoa que sabe desse acontecido. Outra coisa, quando estava em sua casa, nesse maravilhoso final de semana, percebi que havia uma fotografia do seu ex amarrotada por debaixo de fotos antigas e instantes depois senti aquele sapinho vindo pela minha garganta. Tinha que ver os olhos bonitinhos dele Aline.

Só para você saber, quando escutar um coaxar não se assuste. Soltei-o nas gramíneas do canteiro lateral da sua casa.



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