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Henrique Fendrich

rikerichgmail.com

Henrique Fendrich (Crônica de São Bento)

Jornalista são-bentense residindo em Brasília/DF


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Ternuras escritas a mão

Quarta, 03 de fevereiro de 2016

Foi ontem, no final da tarde, que eu escrevi uma carta. Arranquei uma folha de caderno, peguei uma caneta e comecei a escrever. Ah, eu não me lembrava mais como é que se faz isso. No topo coloquei o nome da minha cidade e a data em que eu escrevia – em que escrevia uma carta! Minha letra não é bonita, mas achei que você iria gostar de ver que era minha. Hoje em dia a gente não conhece mais a letra das pessoas, não é? Escrevi seu nome, deixei uma linha, fiz uma saudação e comecei a carta propriamente dita. Isto é, eu demorei um pouco até saber o que devia escrever. Afinal, a gente está sempre conversando pelo celular, não tem muita novidade para contar. Na verdade, não tem muito motivo para eu escrever uma carta, não nos dias de hoje. Ainda assim, achei que devia, que alguma coisa podia estar escapando na velocidade de nossas conversas eletrônicas. E então escrevi – uma carta.

Claro, eu sabia que não podia escrever nada muito urgente, apenas coisas que pudessem esperar pelo menos uma semana até serem lidas. Ah, era preciso dizer coisas que nunca tiveram tempo de ser ditas. Lembrei de histórias em comum, da vida que levamos hoje e daquilo que esperamos para o futuro. Provavelmente nós estamos adiando decisões importantes porque não paramos para pensar a respeito. Quem sabe se uma carta não nos ajuda a refletir melhor? Pedi conselhos, dei outros, contei coi-sas pequenas do meu dia, livros que li, discos que ouvi, coisas que gostaria de compartilhar contigo, mas que morreriam comigo se eu não criasse um tempo para elas.

À medida que eu escrevia, duas coisas aconteciam: o meu pulso doía, desacostumado do esforço de escrever, e eu percebia o quanto você é importante para mim. Ao terminar, dobrei a folha com cuidado e a coloquei dentro de um envelope. Nele escrevi o seu nome – achei que era exagero colocar o seu apelido carinhoso – e o lugar onde eu quero que esses afetos cheguem. Resgatei um tubo de cola, fechei o envelope e segui para uma agência dos Correios. A atendente recebeu a carta, perguntou se era simples, e eu respondi que sim, era simples, e mais do que isso, era singelo. Acho que ela não entendeu. Ao final me cobrou R$ 0,85. Oitenta e cinco centavos! Eis o preço que se paga neste país por ternuras escritas a mão.

Está consumado. Inacreditavelmente, aquilo que escrevi aqui, no final da tarde de ontem, irá chegar às suas mãos na semana que vem. A folha é a mesma, o envelope é o mesmo e as coisas que eu disse também. Sei que você ficará espantada por receber uma carta, e uma carta que diz tantas coisas que a gente nunca teve tempo de dizer. Imagino você lendo várias vezes, feliz, porque no meio dessa correria toda alguém parou para pensar em ti. Quem sabe essa carta se transforme em um pequeno tesouro que você irá guardar com todo cuidado e da qual não irá querer se desfazer nunca. É provável que queira responder, e então serei eu que terei a oportunidade de ler, do seu próprio punho, todas as coisas que você nunca teve tempo de me dizer pelo Whatsapp.

E tudo isso só porque ontem, no final da tarde, eu resolvi escrever uma carta – uma carta que me custou oitenta e cinco centavos.



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